We all want the same thing.

     Tem um congestionamento aqui dentro de mim. São tantos querendo se expressar, se exibir, seduzir, ter voz… tem uma população afoita aqui dentro, louca para ganhar o mundo; São tantos de mim que parecem não caber nesse meu corpo pequeno. Essa noite, refletindo sobre a minha vida, fiz o de sempre: chorei. Chorei por não ter o controle da minha vida. Não poder ter quem eu quero. Chorei como se fosse morrer de dor. Faço tudo isso quieto, no meu canto, sem incomodar ninguém. Não quero dividir com o mundo meus problemas, que para os outros parecem simples demais. E no final, eu fico aquele vaso quebrado, tentando remendar os cacos. Pode ser que eu fique inteiro novamente, mas as rachaduras sempre estarão visíveis para quem olhar mais de perto.

     Pareço tão invisível para os outros, que nem sequer notam meu esforço. Nem sequer me notam. E esse sentimento de incapacidade encontra um Igor que não acredita em si mesmo quando o assunto é amor. Afinal, não é em torno dele que a gente vive? Amor pela profissão, amor pelo dinheiro, amor pelos amigos ou por si mesmo, amor pela família… ou só amor mesmo, puro e simplesmente amor. Não encontrar alguém com quem dividir os prazeres sutis do cotidiano, alguém para observar o céu, para descansar no peito depois de um dia longo… ter alguém para onde correr quando tudo perde a graça. Não ter tudo isso me acaba. Me mata cada dia um pouquinho. E pior, desperta em mim um dos piores sentimentos que existem. A inveja. Odeio ter que admitir, mas às vezes, ver um casal que ama e compartilha, me machuca. Fico feliz por eles, mas triste pela minha incapacidade de construir algo desse tipo.

     Então só me resta imaginar. Sonhar. Quando eu me apaixono, eu me entrego, total e cegamente. E quando o mundo fica bobo, não é nada mal se entregar assim. Sou daqueles românticos antigos e incorrigíveis. Já que amar não mata, quero despencar de cabeça até o fundo desse poço, subir gargalhando até o infinito supremo e depois me largar num amor, como uma canoa em alto mar.

     Os mais próximos dizem que eu tenho tudo o que é “necessário”. Uma certa beleza, uma personalidade ótima, estilo para dar e vender e uma inteligência formidável. Mas, como os outros – e quando eu falo os outros, digo os pretendentes, aqueles que me prendem apenas com o fato de existir – não vêem nada disso. Não quero precisar seduzir ninguém, ou ter que multiplicar minhas qualidades para que elas sejam vistas. Nada disso. Eu preferia pular essa parte da sedução e partir voando para o amor em si. A gente perde um tempo danado tentando seduzir os outros.

     Talvez eu esteja apenas tentando construir uma ponte mais sólida entre mim e o eu do futuro. Nesse trajeto eu vou tentando me distrair com amigos, música, teatro… mas nada disso me faz esquecer o protagonista dessa história. Sou tão carente ao ponto de dar ao outro o amor que deveria sentir por mim mesmo. E isso não é nada bom. É humilhante, para falar a verdade. Quando eu tiver me livrado desse amor sufocante, talvez eu consiga enxergar tudo com mais clareza, sem esse borrão rosa e cinza que é amar – eternamente – sem ser correspondido. Faço de tudo para encompridar o tempo e estar com a pessoa que eu amo, mesmo ela não sabendo o que se passa. Mesmo desconhecendo a proporção e a densidade do que eu sinto, gosto de estar perto apenas pelo fato de estar. De compartilhar o mesmo ar, talvez toca-lo, mesmo que seja “sem querer”. Ouvir a voz, e deixar que ela dance nos ouvidos. Só isso já me deixa satisfeito. E esse é o mal de quem não recebe de volta o amor que envia para o universo: acaba se contentando com o pouco. O quase. Quase perto o bastante, quase amigos o suficiente… minha vida toda poderia ser resumida nessa palavra, quase. Quase o melhor aluno, quase bonito, quase inteligente, quase atraente… mas nunca o suficiente. Estar tão perto e tão longe – com o perdão do clichê – me dói bastante.

     Só sei viver se antes passar pela cegueira que é amar. Não me entregaria assim para outro, de caso pensado. Faço planos para tudo, menos nos assuntos do coração. O fator surpresa sempre me pegou de jeito, e quando eu caio em mim, já estou apaixonado. Ou seja, por mais intelectual que eu tente ser, pela racionalidade a coisa não vai. Preciso que alguém venha de repente, mesmo sem querer, e me roube os sentidos e minhas fragilidades. Só mesmo a paixão, que é do reino da loucura, me deixa totalmente entregue e besta. Com todas as armas arriadas no chão. E eis a contradição outra vez. Nada me conforta tanto quanto um amor insensato. Quanta paz há naqueles momentos em que você vislumbra o paraíso.

     Mas, mesmo com isso tudo, não sou uma pessoa infeliz. Em momento algum minhas tristezas me imobilizaram totalmente. Mas não foi por coragem, e sim por temperamento. Meu gênio forte me impede que fique muito tempo na inércia. Se estou triste, choro, ponho tudo pra fora, depois pinto um belo de um sorriso no rosto até que uma lembrança ou algo me lembre das feridas lá do fundo. Poucas pessoas roubaram meu entusiasmo pela vida. E assim tem sido.

     Não acho a vida difícil. Nem um pouco. Só acho ela repetitiva demais. Me cansa nadar sempre contra as mesmas correntes, e atravessar as marolas que por serem tão pequenas, nem me evoluem o espírito. Não ter alguém que me ajude a remar também é um tanto desmotivante.

     Todos nós queremos a mesma coisa. Todo mundo quer alguma coisa, ou luta por alguma coisa. Qualquer um precisa de alguma coisa. Todos nós precisamos de algo para nos apoiar. Todos nós precisamos de amor. E eu quero você, eu preciso de você, eu lutarei por você. Eu quero ser o seu apoio. É tudo que eu preciso.

     É duro ter que viver dia após dia consigo mesmo. Meu grande cansaço é de mim próprio. Vez por outra me pego pensando, pra quê eu vivo? Afinal, qual é o grande objetivo que me move todos os dias? Acaba que eu vou caminhando pra longe de mim, dando as costas pra verdade. Não fui isso que eu fiz até agora?

     Não existe sentimento mais forte do que o amor, um imenso amor. A gente sofre, cega, emburrece, se adoenta, sara. E depois, como se nada tivesse acontecido, se apaixona de novo. Pra mim, essa é a grande mágica. Sempre fui muito ligado nas coisas pequenas, que passam despercebidas. E também nas pessoas – que assim como eu – passam despercebidas por todo mundo. Talvez, por ter um ideal de pessoa tão diferente da maioria. Sempre achei essa uma das minhas maiores qualidades, e agradeço a Deus todo dia por não ter nascido igual aos outros. Sou sempre propenso ao estranho, ao difícil, ao mal arrumado, ao de óculos enormes e tênis all star. Ao de cabelo cacheado, de calças largas. Por mais que eu admire a beleza, não é nada mal fugir dela quando necessário.

     Quanto a mim, continuo aqui nesse meio de vida. Meio sem rumo, meio professor, meio sem laços, meio fechado pra dentro de mim. O tempo vai passando com sua batida ligeira. Vem surgindo dentro de mim uma urgência de fazer as coisas. Fico inquieto ao remoer as ocasiões perdidas. Porque não falei quando era hora de ouvir, porque não cultivei mais amigos, porque não sosseguei quando era hora de histeria, e porque hoje são tantos porquês quando ontem era apenas um dia após o outro? Entre esses meios e porquês percebo uma frustrante tendência à incompletude. Eu fazia teatro, mas nunca fiz um espetáculo importante, chegava quase. Eu conheci centenas de pessoas legais, mas nunca tive realmente um laço com alguém, mas quase. Nunca fui o melhor dançarino, nem o melhor pintor, nem o melhor escritor da turma. Nem o pior. Poderia ter sido o melhor em alguns momentos, mas algo de mim desinteressava-se quando percebia que a glória era alcançável. Deve ser por isso que o amor ainda me fascine tanto. Quanto mais distante ele esteja, mais o admiro.

     Bem, e só fazem 17 anos que é assim. Se você leu tudo isso até o final, parabéns, você é um vencedor, e provou que têm estômago forte. Se você leu, e gostou, pior ainda.

     Mas se você teve acesso a tudo isso, saiba que eu gosto muito de você, não importa quem esteja aí do outro lado. Agora você já sabe como eu sou e como eu me sinto – de verdade.   

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